terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Condolências

“Minhas condolências”. Foi o que ele me disse quando entrou naquele quarto escuro e denso de fumaça dos meus cigarros. Olhei-o com desconfiança, ele esboçou um sorriso branco naquele rosto sombrio. Repetiu suas fúnebres palavras: “Minhas condolências”. Pegou uma cadeira e sentou-se ao meu lado e pediu um cigarro, acendeu-o com charme e deu suas primeiras tragadas como se saboreasse um doce.
Perguntei o motivo dos pêsames e ele respondeu com tom calmo e gentil: “Suas memórias, meus pêsames por suas memórias. Foram-se há tempo, nem do meu rosto, minha querida, você se lembra.”. Abraçou-me com cuidado e depois se levantou, foi ao fundo do quarto onde eu não podia vê-lo e disse: “Sou eu querida, o diabo.” Senti sua silhueta se aproximando, em seguida vi seu sorriso branco aparecer em meio à escuridão.
Senti-me seduzida por seu hálito quente como fogo na minha nuca e entreguei-me ao calor de seu corpo, no chão daquele cômodo sombrio e denso. Saboreamos o pecado e o gosto era bastante comum, gostoso. Eu já conhecia aquela silhueta, lembrava-me aos poucos dela, e ele parecia jamais ter esquecido a minha. Lembrei-me de quem essa sedutora fera disse ser, desvencilhei-me de suas garras e afastei-me, seus olhos me encaravam com selvageria, tinham cor de jóias vindas do inferno, encolhi-me no canto do quarto, perto a janela, onde do lado de fora o mundo acabava em chamas.
Cauteloso e sorrindo novamente disse: “Vamos meu amor, você nunca teve medo de mim.”. Puxou-me com força e fez-me dançar uma valsa feroz, onde suas mãos alisavam-me desde a nuca às nádegas. Senti lágrimas em meus olhos, mas a dança, os passos marcados e suas mãos firmes me guiando pelo quarto me contagiaram e me fizeram esquecer de tudo.
Já era tarde, já estava tudo perdido. Desde sempre, eu estava apaixonada.









Texto baseado em um sonho recorrente.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Prazer

A lucidez esvai-se e a selvageria do desejo carnal invade o corpo. O sincero amor dá lugar à mais gentil promiscuidade. O gosto do perigo, o cheiro do proibido e a violência do prazer dominam o corpo, a mente, a alma e eternizam o momento. O suor seca a sanidade e santidade. Os pensamentos somem e o foco é um só. O atrito e a intensidade só deixam querer mais. O toque da pele e o movimento intenso são deliciosamente sincronizados.
Quando o espetáculo acaba só resta gozar do prazer do momento, sentir um ar de satisfação e felicidade tomar o ar e te fazer relaxar.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Amarras

Tornou-se impossível desatar os nós, livrar-me das amarras. Tentei mas não consegui. Desvencilhar-me de você é intensamente impossível. Desvencilhar-me de você é desvencilhar-me de mim.
Caminhar sem você, é caminhar no escuro, sem chão sem direção.
Meu coração está amarrado, fundido ao seu. Respirar sem você é não respirar.
Lindo e frágil como um castelo de areia, um dia resistiu às ondas.

Deixei de caminhar, deixei de respirar. Você se foi sem olhar para trás, sem virar-se sequer para fechar a porta. Senti minha essência esvair-se. Seu perfume ainda estava aqui, seus discos, sapatos, camisas, cuecas, tudo, menos você. Sua xícara ainda estava na pia, com o resto do café de hoje cedo nela, secando no fundo, os farelos do seu pão ainda estavam no prato. As marcas da briga ainda estavam grudadas nas paredes, chão, teto, cama, sofá, mesa, as palavras ainda estavam soltas no ar.

A porta permanecia aberta, não haviam forças em mim capazes de me fazer levantar, viver. A porta permanecia aberta, esperançosa, ansiosa pelo seu retorno. A chuva entrava pela janela assim como minhas lágrimas escorriam pelos meus olhos, sem vergonha, sem cerimônia.

A última imagem da minha vida é essa, eu assistindo meu mundo inteiro ir embora pela porta do nosso apartamento de um quarto, me deixando jogada no chão, derrotada, acabada, sozinha, desamparada. Se houvesse alguém para me dar um conselho, diria para seguir a minha vida, eu apenas responderia que não há mais vida. Ela se foi pela porta da frente.

Sentada de frente à porta fiquei por horas, dias, nem sei. Sentada de frente à porta fiquei esperando seu retorno, esperei o tempo que o destino me proporcionou. O tempo que meu coração tinha pra bater, ele estava condenado. Você o condenou, plantou uma bomba relógio nele assim que encostou seus compridos e macios dedos na maçaneta da porta.

Minha vida se foi, minha essência, meu sorriso, minhas sensações e sentimentos. Virei um corpo gélido, agora deitado, de frente à porta.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Inconstância

A inconstância do meu ser me faz inseguro? Ou será o inverso? Talvez eu seja completamente seguro em mim. Minha permanente confusão me faz mudar o caminho, alterar a rotina, e assim, criar uma nova história...

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Abismo

A solidão é um abismo.
Um abismo que te obrigam saltar. Empurram-te, puxam-te, sugam-te.
Um abismo sem fundo, final.
Sem enredo e elenco. Sem história.
Um filme em preto. Um eterno e sereno vazio.
Que engole o escolhido com carinho.
Uma eterna queda. Uma queda tranquila, confortante, conformada.
Sem esperança, surdo, cego.
Sem uma mão para segurar, um ombro para deitar.
O filme roda. A vida roda.
A escuridão permanece. Rígida, afagando o doente.
O abismo é uma doença.
Uma doença contagiosa e sem cura, um caminho sem volta.
Uma queda sem fim.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Go Home

Apoiada aqui, no parapeito desta varanda, tragando o segundo cigarro de filtro amarelo, perco-me em devaneios.
Voltei à minha casa, casa de papai e mamãe, onde eu me sentava na grama macia do quintal e admirava o céu, fizesse chuva ou Sol, lá estava eu, tomando benção do infinito azul.
Lembrei do silêncio, da familiaridade, do cobertor quentinho que mamãe esticava sobre mim nas madrugadas frias. Lembrei das histórias do papai, dariam bons livros de ficção, que nos arrancavam boas gargalhadas ao final de cada uma.
Pareço sentir o cheiro da torta de morango da vovó, passar o dedo na cobertura e lambê-lo para dar a primeira prova dava-me um prazer inexplicável. Vovó tinha mãos de fada.
Tive uma súbita volta à realidade ao me assustar com a escandalosa buzina de um caminhão que atravessava a movimentada avenida do centro da minha nova cidade.
Me mudei para viver sozinha e sinto-me sozinha demais. Sou rodeada de apartamentos, vizinhos e carros barulhentos, cigarros e solidão.
Eu quis partir, agora quero voltar.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Sou o triste fim do Jack

Sou o corpo morto do Jack.
Se eu pudesse explicar qual é a sensação de morrer, eu explicaria. Só sei que agora estou aqui, nesta maca gelada e mórbida da sala de autópsia do necrotério.
Sou o cadáver medroso do Jack.
Não fui muito com a cara desse legista, tem outro? Garçom por favor, uma dose de conhaque, pelo visto não me aplicarão anestesia.
Sou os órgãos expostos do Jack.
Minha mãe finalmente deve descobrir que eu era um puta de um fumante, vai descobrir que meu fígado já não estava tão bom por conta da bebida.
Sou o coração arrependido do Jack.
Me considero jovem para estar aqui. Não lembro bem como morri, mas foi de acidente. Menos mal para minha alma saber que não foi por conta do cigarro nem do álcool. Foi um acidente. Isso, um acidente.
Sou o sentimento de alívio do Jack.
Acho que já estou devidamente costurado. Será que já posso ver mamãe? Ou será o contrário? Será que mamãe já pode vir me ver? Não seria agradável, estou gelado, pálido, acidentado e devidamente costurado.
Não mamãe, não venha, não sofra.
Sou o corpo sendo velado do Jack.
Acho que aqui dou adeus ao corpo que um dia foi saudável, talvez na infância.
Sou a adolescência rebelde do Jack.
Estou partindo, não tenho mais tempo para prosas.
Sou a alma, perdoada de todo mal, do Jack.